sábado, 20 de agosto de 2011

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    Certo dia tentei fazer um bolo... Ele murchou.
    Aí eu tentei desenhar o rosto da minha mãe... E ela perguntou o que era aquilo.
    Tentei também consertar o pneu da minha bicicleta, e desde então ando a pé.
    E fui fazendo coisas, tocando violão e estourando as cordas, me maquiando e parecendo o Coringa, cantando e me endividando na vidraçaria... Enfim, eu tentei fazer tanta coisa, tanta coisa, que eu me cansei da vida, e decidi que não ia fazer mais nada, ia ficar a mercê do destino, esperando meu dom aparecer pela janela. E para validar minha palavra, me pus a escrever um contrato que fechei comigo mesma de que não tentaria fazer mais nada, para evitar decepções. Escrevi mais de 50 clausulas, um poema, três textos de amor e um bem feminista. Foi nesse dia que eu descobri algo que eu fazia bem, e que me fazia bem, me fazia melhor, me deixava mais leve, me deixava mais eu, mais o mundo, mais a natureza, mais tudo: escrever.
    Descobri também que dom não é só o que você faz melhor que todos os outros a sua volta, ou algo em que você se destaca. Dom é alguma coisa que você consegue fazer e que acalma a sua alma, que te faz sentir vivo. Escrever sobre a vida me faz viver. Dentre todas as coisas boas e más que já fiz, entre todas as escolhas e entre todos os estilos de vida, o da escrita é que me completa, e me salva da insanidade.
    A Clarice que me desculpe, mas visto que se encaixa como uma luva à mim, me aproprio a partir de agora da frase dela, e confesso pra vocês que "Eu escrevo como se fosse pra salvar a vida de alguém. Mas, provavelmente, a minha própria vida."

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