terça-feira, 13 de setembro de 2011

Coisa de filme

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Todos os dias quando em passo em frente aquela rua, a rua Nova Esperança, eu finjo não olhar para os lados, mas meu rabo de olho começa a abanar como se fosse de cachorro, e olha bem indiscretamente discreto para dentro da locadora, e ai que dor que me dá quando ela não está olhando também.
Pode parecer besteira de criança de quarta série, mas eu me apaixonei pela mocinha da videolocadora do bairro. Não sei se foi o jeito como ela diz “Oi, posso ajudar?” ou a cara de perdida entre sonhos enquanto procura algum filme nas imensas e lotadas prateleiras, mas ela me encantou. Encantou de tal maneira que meu salário vai quase todo em filmes que eu nem ao menos assisto, só para ver aquele sorriso dela e escutar a sua voz dizendo “Dois dias, tá?”. A única coisa que me chateia sobre ela, é que todas as vezes em que alugo, na hora de procurar minha ficha, ela me olha e diz com um sorriso e a velha cara de dúvida “Seu nome é…”
Isso me corta por dentro, e me faz querer botar fogo em Hollywood, para que nunca mais ninguém produza nenhum filme decente, e as locadora sejam obrigadas a declarar falência por falta de novidades.
Eu vou lá todos os dias para vê-la, e ela nem sequer decorou o meu nome… Ela nem precisa gostar de mim, mas ela podia lembrar de mim como o cliente chato que pede indicações todo santo dia, exceto aos domingos, pois a locadora está fechada.
Ainda como se fosse uma grande piada onde eu sou o personagem principal, a rua tem como nome Nova Esperança. E como se eu tivesse adotado o nome da rua como meu sentimento rei, cada dia ao sair de lá de dentro, saio com uma nova esperança… De que ela pegue meu telefone na ficha e me convide para ver um filme, de que ela olhe para mim quando eu entregar os filmes e diga “Eu lembro do seu nome agora!”, ou que ela pelo menos converse comigo sobre qualquer assunto além de filmes, que ela veja algo especial em mim… Com a esperança de conseguir convidá-la para sair na próxima vez que eu for devolver um filme… Mas por enquanto, são esperanças vãs, e diferente da Rua, não me levam a lugar nenhum.
Entre milhares de sentimentos e filmes, eu continuo sonhando com ela, continuo imaginando que aquelas histórias das comédias românticas que são os favoritos dela, podiam ser protagonizadas por nós, mas eu sou apenas mais um cliente pra ela, nada além disso. Mas quer saber? No fundo, eu não tô nem aí pra esse descaso casual dela. Só de entrar por aquela porta e ela estar ali, já melhora o meu dia, e embora ela não saiba meu nome, o número da minha ficha ou qualquer outra coisa, quando eu entro ali, ela sorri pra mim, só pra mim, e eu tenho fé que se esse sentimento tiver que ser recíproco, vai ser, não importa se for hoje, daqui a um mês, ou na próxima cerimônia do Oscar. Mas agora, mê deem licença por favor, que eu tenho um filme pra devolver.

2 comentários:

  1. Todas as vezes que passo em frente daquela casa de paredes amarelas, eu finjo não olhar para os lados mas o meu rabo de olho abana como o rabo dos meus cachorrinhos….
    Hesitei… mas um dia entrei…e noutro me declarei….
    Voltei cabisbaixo… mas feliz…
    Porque enfim, ela sabe que eu existo ….e só assim, embora singelamente, consegui me inserir numa pequena e isolada linha dos milhares capítulos da sua vida….

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  2. Lá ela estava...altiva, sedutora como sempre, mas desviei meu olhar e até virei de costas...
    Os poucos minutos naquela fila pareceram dias, meses, anos...
    Quando entrei, finalmente, que alívio...
    Mas daí ela tb entrou e mesmo com todo o frio que fazia, uma gotinha de suor desceu, reveladoramente, na minha testa...
    Criei coragem e a cumprimentei...aquele lindo sorriso apaziguou a minha insuportável nevralgia, se câncer fosse teria também curado...
    Mas a felicidade logo se dissipou...em milésimos de segundos...foi-se ela alegremente para a pista, requebrar ao som de Nath, que a seduziu com o batuque do Hip Hop e dela, nessa noite, nem sequer um único misericordioso olhar mais recebi...

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