
Dia desses fui arrumar meu guarda roupas, e entre pilhas de trapos, achei uma calça jeans velha que era a minha favorita ha uns três ou quatro anos atrás. Resolvi que iria lavá-la para doar à igreja ou algum bazar, e a joguei no monte de roupas sujas.
Mais alguns dias se passaram até que tive tempo de levar as roupas na lavanderia, e por força do hábito fui olhando os bolsos de cada camisa e de cada calça, e encontrei velhos extratos bancários, tickets de restaurantes, cartões de clientes que eu nunca mais atenderei na vida, e quando chegou nesta dita calça, achei um papel que mexeu demais comigo, pois depois que ele foi escrito e guardado, muitas coisas mudaram na minha vida, cresci e amadureci muito nesses três ou quatro anos, viajei, recebi buquês de flores, jóias, perfumes, e até cartas à moda antiga, mas nenhuma dessas coisas me fez sentir do modo como me senti ao ler nele, com seus pequenos dois centímetros, as palavras:
Essa frase me levou pra um lugar que nem avião nem foguete leva... Me levou de volta para quem eu era. Me fez lembrar dos meus sonhos e vontades, meus medos, e o grande amor que eu sentia por um certo garoto. Me fez lembrar do dia em que ele "teve que ir embora", e que ele disse que me amava muito, mas que mesmo assim não podia ficar, e que na última vez em que nos vimos, tudo o que ele fez foi me entregar esse papelzinho antes de entrar no ônibus e dizer "Lê isso, e me espera! te amo minha linda..". E ele foi, nem me olhou pela janela... E foi depois dessa despedida que aposentei todas as roupas que usei nesse dia para nunca mais me lembrar de tal data tão triste, e que agora me levaram de volta para ele no fim das contas. Lembrei que eu virei o comentário da escola, "Ele deixou ela, acredita?, Sabia que ele preferiu ir embora do que aguentar ela?" E lembrei que ele nunca voltou. E deixa eu contar um segredo: eu esperei. Mesmo com toda a pose de "superei", todos os dias e noites, quando o telefone tocava meu coração silenciava esperando que minha mãe falasse Filha é pra você, Quem é mãe? É ele! Mas o telefone nunca tocou com ele do outro lado da linha. Pra ser honesta, talvez eu o espere até hoje, pra poder continuar com a minha vida sabendo que ele não prometeu aquilo da boca pra fora, que ele não me esqueceu assim que passou da catraca. E se eu estivesse precisando ser salva? E se eu tivesse problemas? Eu nem sempre fui forte assim, mas precisei tirar forças de uma promessa de futuro feliz para aguentar o passado, e estar inteira hoje. Lutei dia e noite, por meses e meses, para que as coisas parecessem bem, para que eu parecesse bem. A menina com um coque perfeito, maquiada e sempre sorrindo nunca teve sua farsa descoberta. Por dentro era descabelada, cheia de olheiras e rugas na alma. Mas é a velha história das máscaras, ninguém nunca percebeu o que realmente acontecia.
Embora ainda queira saber onde ele está tanto tempo depois, aceitei que ele não vai voltar, e que não devo acreditar em tudo que me escrevem. Não usei nunca mais a calça, não o vi mais, e descobri que promesas nem sempre são cumpridas. Fui lavar roupa suja na lavanderia, e findei por lavá-la aqui.

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