
Quando eu era pequena sempre esperava meu pai chegar do trabalho, era um costume. Eu acordava automaticamente às seis da manhã , e em dez ou quinze minutos ele entrava pela porta com aquele sorriso torto que era todo meu mundo e uma florzinha meio amarela, meio rosa e meio branca nas mãos para me dar de presente. Era a maior felicidade do mundo, bonecas e balões coloridos não seriam capazes de roubar minha atenção quando ele cruzava a sala, ele era o amor da minha vida, estava claro. Mas as coisas ficaram um pouco diferentes depois de um tempo. Eu continuei acordando no mesmo horário, mas ele não chegava mais dentro de dez ou quinze minutos, na verdade ele não chegava nunca, e nem saía também, mas eu continuava acordando cedo com a esperança de ver o meu anjo passar pela porta dizendo "Bom dia coisa linda", mas ele não vinha, esperei por semanas, e nada dele voltar pra mim. Quem me acolhia em todas essas manhãs solitárias era a minha mãe chorando e dizendo "Vem dormir meu amor, o papai vai demorar um pouco hoje". Perdida em lágrimas e me abraçando muito forte, ela pegava no sono antes de mim. Eu continuava atenta ao barulho que a porta poderia fazer. Não entendia muito bem o que estava acontecendo, pensava que talvez o papai tivesse se perdido no meio do caminho ou ido visitar a casa da vovó, eles sempre me falavam sobre como ela morava longe e como lá era bonito e azul, mas jamais passou na minha cabeça que ele havia ido embora pra sempre.
Com o tempo fui aprendendo coisas sobre a vida em livros, na escola, na televisão, e percebi que ele não tinha se perdido no caminho, mas sim chegado ao fim dele. Meu papai que eu esperei por tanto tempo estava no céu, no lugar bonito e azul que a vovó morava, e era realmente o meu anjo. Não culpei minha mãe pelas explicações não dadas, afinal, como se explica para uma menina de cinco anos que o seu pai morreu? Como explicar que a casa da vovó era um lugar da onde as pessoas não voltam? Como eu entenderia? Aquelas lágrimas dela antes de dormir carregavam sua dor e a minha, e durante todo esse tempo me criando sozinha ela foi pai e mãe suficiente para me transformar na pessoa que sou hoje.
Não o espero mais voltar para casa, mas ainda o vejo entrando pela porta como sempre fazia. Sinto seu perfume misturado com suor, vejo a coloração envelhecida de suas roupas e vira e mexe até sinto o toque dos lábios dele na minha testa. Meu anjo sem asas ainda está presente em toda a minha vida, e embora todas as lembranças dos nossos outros momentos tenham sido enfraquecidas com o tempo, a de nossos rápidos chamegos de pai e filha ao amanhecer jamais serão. Sua presença em minha vida, mesmo não sendo física, é constante, e embora eu jamais tenha pedido provas de que ele nunca me deixou, toda manhã quando abro a porta para pegar o jornal há uma flor meio amarela, meio rosa e meio branca no chão, e eu sei que ele esteve ali. Sempre estará.
aii que triste '-'
ResponderExcluirpensei que você tava falando do Sr. Miranda! hahaha ainda bem que não é!
Nath, eu ia falar procê, não colocar o texto em negrito, da agonia de ler por que a letra é muito pequena!
beijos.