sábado, 12 de maio de 2012

O resto é mar

Acho engraçado o jeito como os homens daqui olham para as mulheres, e mais engraçado ainda como as mulheres fingem que não vêem nada. Acho engraçado aquele caiçara mais velho passando de bicicleta na marcha mais lenta possível, e acho engraçado conhecer todo mundo do bairro. Acho graça nas conversas, nas roupas, no pagode feito no bar da rua mais movimentada daqui. Acho graça nas beatas em frente à igreja, nos bêbados na frente da padaria e acho muita graça naqueles que ficam de canto, apenas falando sobre todos os outros. Acho graça (e que graça) nos surfistas que vão enfeitar o mar com seus corpos cheios de desenhos e acho uma graça digna nas moças que fazem o mesmo, direitos iguais até mesmo nas ondas. Acho graça na euforia dos feriados e dias santos, que para a maioria é apenas uma festa badalada na única boate badalada daqui. Acho graça no céu azul, no cheiro de maresia, nas árvores e nos coqueiros. Vejo graça nas crianças correndo descalças no campinho onde meu pai sempre jogou bola e acho graça nessas mesmas crianças indo e voltando da escola. Vejo graça em ir à feira comer pastel com caldo de cana e cumprimentar a japonesa da barraca de verduras, e acho engraçado ir procurar médico no único lugar que deveria ter médico aqui e nunca ter ninguém. Acho graça no nosso único posto de gasolina, nossa única praça, e nossa lotérica que irá inaugurar em poucos dias e que fará crescer nas pessoas desse bairro tão pequeno o sonho de ganhar milhões. Milhões pra quê?  Me diz? Se eu tenho essa praia, esse bairro, o surf, os bêbados e as beatas, a feira, o posto, feriados badalados, caiçaras que tecem nossa história nas suas redes de pesca... Dinheiro não compra isso, você pode comprar o bairro, mas o que o bairro significa e o que o bairro é não se compra, e é por isso que sou feliz, não tenho milhões, às vezes nem ao menos o dinheiro do pão, mas sou esse bairro, eu sou Maresias, e isso já é o suficiente, o resto é resto, é mar.

2 comentários:

  1. ESSE!

    Ficou muito bom esse texto nath, sempre ficam legais esses mais simples, ainda mais falando de coisas que quase ninguém liga, só quando perde, afinal tem tanta que gente não vê a hora de sair daqui, acaba sendo raro alguém dar valor para as coisas boas daqui, a vida mansa... e as vezes nem tão.

    abrç

    ResponderExcluir
  2. Caralhoooo, adoreeeei!
    As beatas foi foda! hahahaha tão bom morar nesses bairros né!? ninguem enxerga essas coisas, coisas simples, até o tilintar e seus barulhos é tão m ais diferente e calmo!
    Adoreeei o texto!

    ResponderExcluir

Expresse sua opinião com respeito e educação. Aceito críticas e sugestões.