O que faz uma mulher de 32 anos perseguir uma adolescente na rua?
A culpa. Não tem outro motivo, pelo menos para mim, e é essa culpa que me faz querer voltar no tempo todo santo dia da minha vida para tomar uma decisão que teria mudado todo meu destino.
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O centro da cidade sempre está cheio, raramente vejo algo ou alguém que me chame a atenção, mas ontem ao passar em frente a entrada de uma lanchonete vi algo que não pude ignorar: meus olhos e sorriso. Parece loucura, mas eu vi em uma menina de aproximadamente 15 anos, traços que eram meus, até mesmo o jeito de mexer no cabelo e o jeito de sorrir jogando a cabeça para trás, foi como se eu me visse há 17 anos, e ao voltar no tempo lembrei de uma escolha errada que fiz, que é o que me levou a perseguir essa menina na rua: Ela poderia ser a minha filha. A filha que tive há 15 anos atrás com um rapaz que eu amava muito, mas que ao saber da minha gravidez, me abandonou. Ao ver aqueles olhos lembrei também dos olhos do meu pai, e lembrei de quando ele me mandou embora de casa como se eu não carregasse sua neta na barriga. Fiquei na rua por uma semana inteira, sem ninguém, sem ter nem ao menos o que comer, dormindo nas igrejas da cidade. Mas quando existe necessidade devemos deixar nosso orgulho de lado, e com toda a humildade que eu guardei durante anos em um baú na minha alma, fui até a casa de uma amiga e pedi amparo. É claro que ela me acolheu, ela sempre foi uma boa amiga, eu que era muito arrogante com as pessoas. Fiquei durante os nove meses da gestação em sua casa, mas com a chegada do nono mês eu fiquei com um pensamento enraizado na mente que não me deixava em paz: Depois que eu tivesse uma criança para cuidar, aonde eu iria morar? Eu não ia ficar para sempre na casa da minha amiga, mas sem ter família para me ajudar e sem dinheiro para pagar babá, como eu iria trabalhar para conseguir um sustento? Se eu tivesse aquela criança, a vida de nós duas estaria condenada, mas já era muito tarde para pensar em um aborto, então, de forma inconsequente e louca, planejei a minha fuga para a liberdade e felicidade: eu daria a criança. Acredito eu que a família de minha amiga jamais teria me deixado fazer isso, por esse motivo, quando senti as primeiras dores saí de casa sem avisar ninguém e fui para o hospital. Cheguei lá com a bolsa já estourada e provavelmente muito pálida, pois nem perguntaram meu nome e já me colocaram numa cadeira de rodas que me levou até a sala de parto. Nada de cesária, minha filha nasceu de forma natural, talvez para que eu nunca mais esquecesse a dor que é por um filho nesse mundo louco, e não só a dor que o corpo sente, mas a da mente e da alma também. Fiquei no hospital por três dias e informei uma identidade falsa, então em uma madrugada tranquila decidi que era hora de colocar a parte final do plano em prática: Ir embora, e sozinha. Levantei no meio da noite e fui até a lavanderia do hospital. Com sorte não fui vista, e ao chegar lá encontrei o que eu precisava: roupas de enfermeira. Me troque e ao sair poderia ser facilmente confundida com uma funcionária do hospital. Antes de sair fui até o berçário, vi a minha filha, a única recém-nascida sem nome na pulseirinha. Eu não podia dar nome para alguém que eu jamais chamaria, deixei essa decisão para quem a adotasse. Vi aquelas mãozinhas tão pequenas e por um momento pensei em ficar, mas não podia, não podia fazer com a vida dela o que fiz com a minha, decidi deixá-la ser feliz. Essa decisão não foi tão altruísta quanto parece no paragrafo acima, maioria dos meus pensamentos eram voltados para o meu próprio bem, afinal, as chances de arrumar um emprego, cursar uma faculdade ou até mesmo virar malabarista de circo estariam esgotadas se eu estivesse carregando uma criança no colo. Então sem pestanejar sai do quarto, troquei de roupa no primeiro posto de gasolina que encontrei e deixei toda essa historia de mãe no mesmo lixo que depositei o uniforme verde-claro.
Como quem já não tinha nada a perder fiz o único bico que uma adolescente sem teto poderia fazer, mas juntei uma grana e consegui aos poucos pagar o aluguel e me desvencilhar dessa vida. Fiz faculdade e até cogitei as aulas de circo, mas nunca, nem por um milésimo de segundo a imagem daquela pulseira sem nome numa mão tão pequena saiu dos meus pensamentos, e assim é até hoje. Talvez a vida não teria sido tao difícil mesmo com a minha filha ao meu lado, talvez a família da minha amiga teria continuado me ajudando, talvez meu pai me perdoasse, mas nunca mais vi nenhum deles e nem quero, só as lembranças que guardo na mente já me enlouquecem o bastante, não preciso de rostos que me olharão pensando "O que terá acontecido com a menina?". E por toda essa história é que persegui a menina que vi na rua, porque ela preenchia todos os requisitos para ser minha filha. Me aproximei de onde ela estava, e como se eu fosse uma psicopata me apresentei e perguntei em qual ano ela havia nascido.
- 1994.
- Ah sim, obrigada. É para uma pesquisa de campo.
Pela rispidez com que respondeu poderia perfeitamente ser a minha filha, mas pelo ano de nascimento não. Como em várias outras tentativas, mais uma vez me decepcionei. Mas esse é um preço baixo a se pagar por eu ter abandonado alguém que tinha meu sangue nas veias em um bercinho de hospital sem lenço nem documento, e inevitavelmente todas as noites antes de dormir eu penso: "Fernanda... Eu teria escrito Fernanda na pulseirinha".

Adorei esse texto de reflexão, podemos deixar muitas coisas da vida pra traz por não crer que é o momento certo, mas o destino sempre nos lembra de que nossos sonhos NUNCA morrem!!
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